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AVIÃO DE PAPEL
Dias atrás estava arrumando a bagunça em casa, que não é pouca, e reencontrei uma raridade que não dava muita atenção ultimamente: um livro que ensina a fazer origami, a arte de dobrar papel em diversos níveis de dificuldade. Eu que não sou bobo nem nada já fui para o nível de dobraduras avançadas. Camelo. Tentei fazer um camelo. Eita bicho ruim de fazer, cheio de dobraduras, montanhas, reversos e vincos. Desisti e fui para um bicho mais fácil, e encontrei o sapinho, que no final ficou torto que só, e como conseqüência me fez perder várias folhas de papel e a paciência. Fui tomar iogurte e ler jornal. Não consegui ler nenhum título nem sequer uma linha fina do jornal com a devida atenção, ouvindo o livro de origami sobre a mesa me dizendo: você não é de nada, não consegue nem fazer um camelo direito. Teimoso, voltei a lê-lo e consegui, depois de onze tentativas – eu disse onze – um avião-jatinho, que ficou ótimo, e até deu uns vôos rasantes pelo quarto. Ainda consegui fazer um barquinho (quem nunca fez barquinho na vida?) e também caixa para pôr os clipes espalhados sobre a escrivaninha. De todos as diversões, o origami é o mais barato de se brincar, bastando apenas paciência, destreza e habilidade, atributos que eu definitivamente não tenho. Aliás, se o origami fosse inventado no Brasil, nem existiria bichos em suas formas, como os orientais propagaram. A dobradura tupiniquim mais conhecida seria o balão de dezesseis lados, pois brasileiro não se contentaria com menos lados. O nome não seria origami, e sim “dobra-dobra”. A única coisa que faço cem por cento é, adivinha, o chapeuzinho. Na escola ficava feito um besta arrancando folhas do caderno pra fazer essa que é a pior dobradura do origami. A segunda pior é o porco. Não que eu já tenha feito um, mas porco em papel parece tão... porco. Só os palmeirenses não me entenderiam nessa idéia. Enfim, ficaria o dia todo falando sobre formas legais ou não de se fazer. Brincadeiras à parte, transformar o papel é uma tarefa tão simples quanto transformar o cotidiano, mas teimamos em complicar suas formas devido à nossa falta de paciência, destreza e habilidades para dar formas ao que buscamos. As formas que obtemos ao manipular a cada dia nossos papéis de bons moços tem como resultado figuras feias e mal tratadas de nós mesmos. Aliás, na escola deveríamos aprender a fazer camelos, peixes e todos os bichos em dobradura. E por dois motivos: para não ser como eu, analfabeto em origami, e também para darmos vôos rasantes pela vida, tal como um avião de papel.
Escrito por PRADO_VINICIUS às 19h53
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CABELOS BRANCOS vbcprado@gmail.com Num desses dias chatos indo pra casa, vi um casal de velhinhos descer pela frente no mesmo ônibus em que eu seguia, em passos quase milimétricos, dando a impressão de que aqueles degraus, meros degraus em outros tempos, se tornaram um verdadeiro penhasco para quem os cabelos brancos já dera sinais. Cabelos brancos, foi isso que me chamou a atenção naquela viagem insossa. Numa cena corriqueira percebi que a idade condena quando os cabelos dão seus sinais. Num olhar nada discreto - aliás nessas horas curiosos sempre são indiscretos-, vi que o senhor tinha um lenço no bolso da camisa, e a senhora tinha uma bengala toda descascada em sua base, detalhes que eu talvez não dispensasse a devida atenção caso ambos não tivessem os cabelos brancos, tão brancos quanto a areia de uma praia não descoberta. Pra onde foram não sei (creio que pra casa, era o ponto final), mas sei que ele tinha um lenço e ela uma bengala... nada mais. Nesses detalhes percebi que o tempo passa, mas as pessoas continuam as mesmas, embora se consiga colorir os cabelos com um tom menos natural que o tempo atribui. Os sinais de que a vida corre em seu rumo está além de se perceber a tonalidade dos fios sobre cabeça, até porque os carecas, quer dizer calvos (é mais elegante esse termo), tem vantagem neste aspecto. A idade cronológica é visível, talvez mensurável por se ver as pessoas por fora. Mas a verdadeira idade nem sempre se equipara com a idade conferida pelo calendário. Sei que há alguém que seja mais novo que eu de espírito tendo cronologicamente sessenta anos. E talvez com cabelos brancos, por que não? Aliás,deveríamos nascer com cabelos brancos, e no decorrer dos anos os mesmos deveriam tomar a tonalidade que a natureza desejasse (se bem que eu bebê com a cabeleira branca pareceria um bonequinho de loja). Deveria ser deste modo porque a vida gera mais cores conforme vamos crescendo – e os cabelos não deveriam “desbotar”, e sim colorir. De qualquer modo, desde aquele dia, vi que há diferentes idades numa mesma pessoa num mesmo dia, e que pode variar conforme nosso humor, paciência e disposição. Pela manhã podemos estar com aquela energia de quando se tem quinze anos. Depois do almoço com aquela preguiça de criança de seis. À noite, ao ver novela com a paixonite dos dezoito. E na escola, seja a qualquer horário e com aquela paquera, com o sorriso igual ao da senhora que vi descer do ônibus. Enfim, o calendário nos condena, mas os fios brancos, mais cedo ou mais tarde, nos atesta que vivemos de verdade. Principalmente quando se vê dois velhinhos a descer do ônibus num dia que seria apenas mais um, indo juntos pra casa.
Escrito por PRADO_VINICIUS às 00h59
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RESPIRANDO FUNDO vbcprado@gmail.com Fui fazer um exame médico, e bem naquela hora em que o doutor colocou o estetoscópio no meu peito e disse para eu repetir o número 33 umas quatro vezes (aliás, por que 33? Não poderia ser o número 666 ou 171, por exemplo?), prestei mais atenção à minha respiração nos dias seguintes. Não que ela mereça uma atenção tão privilegiada, mas vê-la (e senti-la) dá ótimas idéias para renovar conceitos, rendendo até algumas linhas nesta pequena crônica. Comecei a perceber que o ato de respirar, assim como o ato de não respirar, é tão instintivo quanto piscar, mas de um modo diferente - parece que descobri a América! Quando se coloca para dentro dos pulmões o oxigênio (tudo bem, não só oxigênio), e deste se origina um ciclo infinito de elementos físicos e químicos, também há outras transformações inerentes à dinâmica humana. Explico: seu modo de interagir com o ser humano, seja quando corremos para pegar o ônibus que se vai, seja fazendo ioga e estando quase no nirvana – esqueça a banda -, o faz como um amigo invisível, que não se sabe o nome, endereço e sequer porque está ali, tal qual um anjo da guarda intrometido. E isso se percebe quando se está num exame médico repetindo o tal número 33, no meu caso, ou quando se está tossindo ao passar por uma rua tomada por uma negra fumaça, por exemplo. É um sinal tão sutil de existência que só damos a devida atenção quando se está curioso (por que 33?) ou quando a atmosfera nos incomoda ou nos faz perder o fôlego. Aliás, perder o fôlego é uma grande demonstração de que respirar é tão essencial quanto piscar, fazendo parte de um ciclo sem nome, mas que na inspiração e expiração do dia-a-dia nos deixa nas alturas, à beira de um canyon chamado sobrevivência, do qual estamos a um passo de cair todos os dias no primeiro suspiro ao acordar. Quando se está asfixiado por algo que está além do bloqueio das vias aéreas, tem-se a impressão de que o mundo parou, e que um aparelho que não filtrou o bom ar de nossos problemas ainda não foi fabricado. Se imergirmos numa apnéia de problemas ou se está com a visão comprometida por ares de aparência espessa, respirar fundo não é suficiente, é fundamental. Assim como nossos pulmões, devemos separar o que é útil e o que nos é prejudicial. Afinal todo ciclo que se preze tem começo meio e fim, numa fotossíntese que nos leva à sala de um médico que nos manda repetir o número 33, e também à conclusão de que a primeira etapa a ser vencida num momento em que o fôlego se exauriu é parar e inspirar o ar da coragem, e no próximo instante expelir o ar da superação. Respirando fundo.
Escrito por PRADO_VINICIUS às 00h49
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QUER UM IOGURTE?
vbcprado@gmail.com
Com o passar do tempo, nós ficamos nostálgicos por natureza, e o passado fica cada vez mais presente na memória, tal qual uma raiz a frutificar no solo. Há momentos até que não distinguimos o que realmente aconteceu, e o que fantasiamos. Dentre essas lembranças, há a quebra do joelho no futebol, o primeiro dente que se jogou no telhado e também o primeiro tênis que você amarrou o cadarço sem pedir ajuda.
É mágico e ao mesmo tempo estarrecedor (os cabelos brancos vão aparecendo), e conforme as responsabilidades vão surgindo – como pagar o aluguel, trabalhar até tarde sem gorjeta, e ainda cobrir liquidações da esposa - , a infância se torna um ideal intransponível e distante, com aquele gostinho de quero mais. Mais tudo: guloseimas, pular corda e deixar a lição para o pai fazer.
Com certeza grudar chiclete no cabelo da professora ou mostrar o dedo do meio para a tia da cozinha, a mais chata de todas, era tão divertido quanto empinar pipa na rua e gritar para Joãozinho da rua de baixo: “Manda a busca”. Só não era legal levar xingo da mãe por cortar a mão com cerol.
Porém, a fase mais marcante da infância é o primeiro dia de aula na escolinha. Eu por exemplo, chorei depois de sentar diante de uma lousa enorme, e de uma professora de avental xadrez piquenique. Dava medo. Soltei o berreiro, e fui embora com a minha mãe dizendo: “viu o que você fez? Amanhã todo mundo vai te chamar de mariquinha”. No segundo dia, nem olhei pro lado, com medo de alguma risadinha alheia.
Vai dizer que você não se sentiu nostálgico, lembrando-se de quando rodava pião na rua, enquanto hoje seu filho joga online sem nem saber o que era atari? Pois é. Volta para a realidade, os tempos mudaram... E nós ficando cada vez mais velhos – não só cronologicamente. Volta para sua vida e deixa o passado de lado. Vai tomar um toddynho (ops), e vai fazer a lição de seu filho, pois é a vez dele, marmanjo.
Quanto a mim, escritor nostálgico, irei tomar um iogurte. Pensar cansa. Dê-me licença... Vai um gole?
Escrito por PRADO_VINICIUS às 23h39
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A LUZ NO FIM DO TÚNEL
vbcprado@gmail.com
É engraçado pensar em certas situações depois que seu apogeu se desfaz. Pensamos: nossa, não é o fim do mundo como pensei. Isso se dá de diversas maneiras, formas e nuances, se tornando até engraçadas, de tão pitorescas. Uma destas situações é quando passamos pela catraca do ônibus, e na hora de tirar as moedinhas da carteira, elas caem e tornam a rolar pelo assoalho metálico. A cara de desespero é gritante. Tanto que pegamos outras moedas na carteira para pagar, constrangidos por tantos olhos nos seguindo, e deixamos as anteriores como caixinha para algum “sortudo”. Pelo menos nessas horas há sempre a luz no fim do túnel: nossa carteira tem mais moedinhas.
Há também aquele aniversário infantil maravilhoso, em que tudo é chique ao extremo (você diz: que absurdo pagarem tanto por isso – diz a verdade, você já pensou assim!), e na hora mais importante do evento, a hora de a criança assoprar as velinhas, não há sequer um isqueiro ou fósforo para acender a vela. Imagine a situação. Nessas horas fumante nenhum aparece com o tal acendedor, e apela-se para o segurança da portaria, que está a mandar fumaça para o pulmão. Depois da festa você nem se lembra do talher de prata, e sim da vela sem fogo.
Há também as situações extremas, quando não se tem crédito no celular (nos momentos “pai-de-santo”), e é preciso ligar urgentemente para casa avisando mamãe que chegará mais tarde, senão balada nunca mais. E nessas horas, nenhum orelhão ou amigo com celular fazendo ligação (de verdade) aparece. Então se apela para algo nada convencional: liga a cobrar para mamãe, e ela atende com àquela voz tremida por ser acordada três da manhã: “o que você está fazendo na rua até essa hora, muleque? ”. Até você explicar porque vai chegar mais tarde (como a velha desculpa que a lei seca está pegando), sua balada já era. A luz no fim do túnel é seguir a pé, certo de ouvir esta frase ao chegar em casa: “castigo por um mês, mocinho”.
E o mais divertido destas ocasiões é a falta de atitude momentânea, que trava nossa mente por três segundos, por uma surpresa inusitadíssima e sempre congelante. Por falta de jogo de cintura, travamos, respiramos fundo, trememos feito gato com frio, e continuamos como se nada houvesse acontecido.
E nessas situações está presente uma palavra chave: gafe. Eita palavrinha. E a gafe mais tradicional acontece quando o sujeito vai jantar com o chefe para acertar uma promoção, e ao cumprimentar a esposa que o acompanha, diz a frase quebra-clima [que termo sem noção!]: “nossa, parece sua filha”. O chefe olha com aquele ar de “te pego na saída, seu metercapito”, e vira-se para a mulher como se nada tivesse acontecido. A luz no fim do túnel, neste caso, é dizer ao garçom: ”vocês oferecem vinhos de qualidade?”. Agradar ao chefe é garantir mais que uma promoção nessas horas. É garantir o emprego. E haja luz neste túnel, hein...
Enfim, esses acontecimentos aborrecedores, independentemente da situação, logo que passam se tornam anedotas para se dizer aos amigos que se estava no lugar errado, e na hora errada, embaraçando até o ser mais acostumado com isso. Seja gafes ou qualquer nome que tenha, há sempre uma luz no fim do túnel a dizer o que se deve fazer na hora. Ou não...
Escrito por PRADO_VINICIUS às 01h50
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OS TCHAUS DE MINHA VIDA
vbcprado@gmail.com
Sempre me disseram que a vida é permeada por fases, rotuladas com começo, meio e fim, não necessariamente nesta ordem. E a fase mais misteriosa, diferente e esperada (muitas vezes) é o fim. E é no fim é que se dá os tchaus de nossas vidas. Tchaus com diferentes sentidos, impactos, surpresas e intensidades.
Os “tchaus” a que me refiro não se restringem apenas à palavra em si, proferida nos momentos de despedida. Também está relacionado com as situações em que o tempo e destino moldam as situações, de modo programado ou não, mas igualmente limitados pela contagem do calendário. Os tchaus em que tudo se desfaz, mingua, encerra um ciclo que até então se fazia presente.
E esses ciclos podem ter diferentes nuances, moldados conforme o contexto e personagens que empregam em seus enredos, enraizados pelos tchaus. E cada tchau pode ter uma conotação, boa ou ruim, indiferente ou indispensável, mas sempre presente e impactante.
E quais são esses tchaus? Dentre muitos, são as despedidas, os relacionamentos desfeitos, os vícios largados, os diários que não se escrevem mais. Há também os tchaus implícitos, caracterizados pelas palavras que não se dizem, pelos apertos de mãos e pela simples virada de costas para uma pessoa. Enfim, são infindáveis os tchaus que dizemos, não só por palavras, mas também por atos, reflexões e atitudes que nos levam a outros tchaus mais adiante, diferentes.
E nessa dinâmica de ciclos de começos, meios e fins, um tchau nem sempre pode ser considerado como o fim de uma etapa, pois há momentos em que ter algo novo, diferente e que faça a diferença seja necessário acontecer. Mas às vezes um tchau não deve ser encarado como uma verdade por inteiro, sendo necessário em muitos momentos que se dê apenas um até breve.
De qualquer forma, dar um tchau, seja de que forma for, enfatiza a necessidade de se pensar no que está por vir, independentemente do resultado ou conseqüência, pois os ponteiros do relógio sempre andam em sentido horário. A palavra tchau condensa muitos significados de diferentes vertentes, é verdade, mas também representa algo único: que dar um OI para novas emoções e experiências nunca é tarde...
Escrito por PRADO_VINICIUS às 10h42
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VOCÊ VOLTARIA AO PASSADO?
Quem não gostaria de ter uma máquina do tempo para voltar para o passado, e fazer como naquele filme – que não me lembro o nome -, em que o passado e o presente são a mesma coisa? Não por saudosismo, mas por simples curiosidade de rever o que já se foi, o que apenas fotografias não esquecem?
Aquele gol sensacional feito na escolinha, ou aquele tapão que tomou do irmão na final do campeonato, são lembranças que se apagam no tempo e na memória, se tornando algo perdido na mente. Ter uma máquina de volta ao passado seria interessante para que nos momentos ruins as lembranças boas se sobrepusessem, formando algo que sedimentasse apenas o que valeu a pena.
Calma, não é uma máquina para saudosistas, repito. É apenas uma máquina para voltarmos no tempo e vermos o que se passou, uma espécie de flashback de um diário que nunca se escreveu. Algo para se lembrar do primeiro dia de trabalho ou da primeira nota vermelha na escola, algo nada convencional. Aliás, gostaria de voltar no tempo para rever o dia em que fui naquele show sensacional, e curtir cada música novamente. E também para ver Senna ganhando mais uma corrida.
Quando se olha para trás parece que se envelhece mais rápido. O mundo gira mais rápido, tudo acontece diferente. Mas isso não é verdade, o que acontece é que o passado e futuro são peças de um destino que não se pode controlar, como um carro a 200 quilômetros por hora, que tem vontade própria e é conduzido pelo excesso de velocidade, nada mais.
E quando se amanhece em mais um dia, ontem foi apenas mais um dia, a ser contado numa folha de calendário. O hoje e o amanhã são peças de um quebra-cabeça que ainda não se sabe a forma nem a disposição. Enfim, temos certeza apenas do que se passou, do que se fez, do que não se fez. Uma máquina do tempo seria para voltarmos não no tempo em si, mas em nossa consciência para vermos que o agora e o depois podem ser mais proveitosos, em todos os sentidos.
E claro, para voltarmos a uma época sem tantas cobranças, sem tantos prazos. Uma época em que futuro era um ideal, não um medo. (vbcprado@gmail.com)
Escrito por PRADO_VINICIUS às 14h06
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ENERGIA QUE DÁ GOSTO
vbcprado@gmail.com
Não é preciso ter a genialidade de Washington Olivetto para saber que o brasileiro esbanja criatividade, e claro, consumismo, no âmbito comercial e na propaganda. Temos em nossa essência a identificação por propagandas diferenciadas e que nos identifique de modo surpreendente. Ou vai me dizer que você nunca colecionou anéis de latinha de refrigerante, daquela famosa companhia, só para trocar por bonecos que piscam no escuro?
O mais interessante disso tudo é a energia que consumimos na compra de celulares que não precisamos, roupas que nunca vamos usar ou tênis que penduramos longas prestações no cartão de crédito. Nossa criatividade em produzir grandes peças de marketing é tão grande quanto nossa capacidade de comprar o que não terá serventia.
Lembro de um comercial de cervejas em que um siri animado abaixava as calças e mostrava os traseiros para os amigos. Essa propaganda fez a venda de cervejas aumentarem de modo sem igual, demonstrando que um produto com propaganda diferente tem mais apelo que outro que cai no modismo publicitário, criando um jingle que até hoje não sai da minha cabeça.
E nesse consumismo por itens “melhores e modernos” trazem a tona um debate: até que ponto precisamos do que consumimos, e até que ponto usamos a comunicação e criatividade para vendermos futilidades? A funcionalidade do que se consome é encoberta por valores de inovador, evoluído, prático e melhor. A essência do consumismo está no que não se precisa, e a mídia publicitária tem absorvido isso como uma lei, e não como uma exceção.
Tempos atrás, uma operadora de cartão de crédito lançou uma peça publicitária em que a personagem principal, um jovem de uns 25, partiu para vários lugares do país sem nenhum pertence, apenas com a roupa do corpo e com o dinheiro de plástico. A peça tinha o propósito de demonstrar que em qualquer lugar, com aquele cartão, você poderia ir e consumir o que quisesse. Pois curtir novos lugares não tem preço...
Enfim, tudo se resume numa questão: até que ponto nos rendemos a itens que são transformados em algo de primeira necessidade, e qual a nossa parcela de participação num processo em que ter é mais importante do que ser? O debate está aberto. E com ele também está aberto outro debate: vamos armar um boteco aí? (vbcprado@gmail.com)
Escrito por PRADO_VINICIUS às 18h34
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Escrito por PRADO_VINICIUS às 13h53
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O BE-A-BÁ DO CURIOSO
vbcprado@gmail.com
Quando criança, demorei muito para aprender a amarrar os cadarços do tênis, e os deixava sempre por dentro da meia por vergonha de pedir a alguém que os amarrasse. Também demorei muito para aprender a acentuar as palavras quando a professora ditava aqueles textos de história sobre D. Pedro. Não que eu fosse mau aprendiz, mas há coisas que assimilamos mais lentamente. Ou simplesmente não aprendemos por falta de vontade mesmo.
Há também o outro lado. Quando se aprende sem perguntar como se faz, como aquela receita de bolo ou aquela jogada genial no futebol, ambos que se aprende apenas observando, pegando no ar cada detalhe, fazendo da tentativa e erro a superação.
Eis o epicentro das experiências: o aprender. Nas situações em que nada se sabe, ou nas situações em que só você domina aquele conhecimento ou método, o aprender diferencia pessoas que vão do CDF Bill Gates ao excêntrico Einstein (sim, aquele da língua de fora!). Enfim, conhecimento realmente faz experiências práticas ou teóricas terem um sentido, um porquê, algo novo.
Mas o ato de aprender tem vertentes curiosas, como saber que Darwin era depressivo, ou que tomar uma taça de vinho por dia melhora a saúde. O saber faz tudo se transformar, para o bem ou para o mal, mas de um modo consistente, e muitas vezes transformador.
Mas o que tudo isso tem a ver com fato de eu ter aprendido tarde a amarrar o cadarço do tênis? Simples: tudo o que aprendemos, seja a amarrar os cadarços, a dirigir ou ler hebraico, faz nosso mundo aumentar, não só em tamanho, mas também em vínculos com experiências e mundos diferentes, mundos irrestritos a mapas de geografia. Mundos que se podem reduzir à nossa mente, ou se expandir além de nossos preconceitos.
Enfim, a simplicidade e a curiosidade faz a rotina ir embora, trazendo à tona novidades, visões de uma criança que até um senhor de 90 anos pode ter. Afinal, aprender nunca é tarde...
Escrito por PRADO_VINICIUS às 18h02
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BRIGADEIRO NA PANELA
Não há como resistir. A toda festinha que vou, a primeira coisa que olho é para a mesa de comes e bebes a procura de brigadeiros. É um vício que todos temos, em maior ou menor grau. Aliás, brigadeiro é o queridinho do mundo gula, seguido por sucrilhos e iogurte de morango.
Sempre que vejo na Tv aquela atriz interpretando a patricinha da novela a fazer brigadeiro no fogão, confirmo a minha teoria sobre essa iguaria: se fizessem uma pesquisa, como as que fazem às vésperas de eleição, sobre o mundo das guloseimas, o brigadeiro seria disparado o vencedor. E venceria em primeiro turno.
Aliás, brigadeiro, principalmente aqueles quentinhos preparados por nós mesmos - quer dizer, por quem sabe fazer [na cozinha, só faço miojo, toddy e ovo cozido], quebra o mau-humor até daquele priminho de cinco anos que quer assistir o DVD do Bob Esponja de edição limitada, que você tranca a sete chaves no quarto. Enfim, quando você brigar com alguém, principalmente sobre quem fica com o controle remoto no horário nobre em frente à Tv, faça um brigadeiro e presenteie o seu desafeto. Farão as pazes rapidinho.
Tão rápido que brigadeiro será um vício em sua vida, tão usual quanto comer pão todos os dias na hora do café da manhã. Até os políticos se viciariam, presenteando a oposição com brigadeiros para tê-la como aliada numa emenda em discussão. Seria a chamada emenda do brigadeiro. E com o tempo, cidades surgiriam com nome de Brigadeiro do Sul, ou Brigadeiro do Passa Perto, demarcando cada lugar enfeitiçado por essa iguaria.
Com toda certeza, a revolução do brigadeiro já começou (já existe a avenida Brigadeiro Luís Antônio!!!), e em breve terá lojas especializadas apenas na venda de brigadeiros. E então reaprenderemos a ser crianças, tendo o prazer de viver como nas vezes em que lambemos o beiço com o brigadeiro feito na panela...
Escrito por PRADO_VINICIUS às 20h58
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JÚRI LITERÁRIO
Sempre nos vestibulares se pede a leitura de grandes clássicos de Machadão, Oswaldito e aquele de Vidas Secas, o Ramos, entre tantos outros. A literatura, de um modo geral, transcende um modo de pensar que cada autor passa para o papel, tal qual uma criança numa pintura de colégio. E na literatura sempre há porquês, tal como as crianças, que encucam com a cegonha.
Provavelmente alguém já teve esses porquês. Como Lobato criou Emília, a boneca falante? Será que ele tinha um parafuso a menos? Como Kafka teve a idéia de transformar uma personagem em barata, em A Metamorfose? E o Diário de Anne Frank, realmente existiu? Nunca vi alguém se questionando sobre essas questões, embora elas sejam, sinceramente, fúteis. Mas perder tempo com teorias mirabolantes às vezes é interessante.
Sei que no ano de 1999 já até criaram tribunal com júri e tudo para julgar se Bentinho realmente foi traído ou não nas entrelinhas de Dom Casmurro. O veredicto foi não, por falta de provas. É disso de que falo. Apreciar uma boa obra de arte vale para os livros também. Não a ponto de armar um júri. Mas a ponto de perceber que um livro pode ir além das inúmeras páginas que consomem nossa leitura.
A literatura como um todo tem em sua essência o embate de idéias, e a leitura de livros que justificam essa tese só reforça este pensamento. Não devemos ser reféns da Tv, que massifica as idéias prontas. Ver outras formas de pensamento além da telinha nos situa em um lugar diferente, recheado de visões a ângulos mais consistentes.
Ter exemplos como Agatha Christie e Conan Doyle, mestres da literatura policial, é uma mostra de que raciocínio mostra vitalidade. Muita vitalidade, por sinal. Você sabia que Agatha era disléxica, assim não tendo como manuscrever suas histórias? Ela ditava para uma pessoa escrever por ela. Isso é a mostra de que o que faz um bom livro não é um bom escritor, mas as boas idéias que ele propaga. E também um bom leitor que compartilha dessas idéias.
Em uma leitura devemos ser desbravadores como a criança que questiona sobre a cegonha, debatendo idéias e conceitos que não entendemos. Aliás, tive uma idéia. Mas não compartilho com você porque meu espaço terminou.
Sua imaginação já vale um livro, não é mesmo? (vbcprado@gmail.com)
Escrito por PRADO_VINICIUS às 13h47
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E AÍ PESSOAL, FM E FORTE?
COMO NÃO PUDE ATUALIZAR NAS ÚLTIMAS SEMANAS, POR FORÇAS MAIORES, EIS UMA LEVA DE TEXTOS
voalá, nest ce pa!!!
Escrito por PRADO_VINICIUS às 13h45
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VOCÊ JÁ MONTOU UM CUBO MÁGICO?
vbcprado@gmail.com
Você já conseguiu preencher por completo aquele brinquedo que sempre mina nossos neurônios, mas não é o quebra-cabeças? Estou falando do cubo mágico, aquela peça de 6 faces e 54 bloquinhos que devemos alinhar por cores. Talvez seja o único brinquedo que nunca consegui usufruir por completo, desde minha infância. Sempre que conseguia um feito, como alinhar quatro faces, meu desempenho desandava e tornava a embaralhar o lado verde com o vermelho. Daí jogava o tal cubo na gaveta até revê-lo depois de dois meses.
Mesmo sendo um objeto tão simples, nossa mente se complica toda para equacionar seu propósito, que é alinhar as cores. Por que será? Talvez seja por nossa falta de paciência. Ou será por falta de planejamento? Também pode ser falta de controle. Não sei a resposta. Mas um cubo mágico pode ilustrar nossos microproblemas do cotidiano. De tão simples e banais os relegamos a segundo plano, pensando que não influenciarão em nosso dia.
Problemas como perder o ônibus para o trabalho, esquecer de pagar a conta já vencida, não levar as crianças à escola. Assim como o cubo mágico, nossa vida pode ter todas as faces alinhadas, mas sempre haverá um lado mais descascado que o outro. Mesmo completa, nossa vida não é mágica, nem tão uniforme como um cubo.
Então, qual a fórmula para alinharmos as cores em nosso cotidiano? Talvez seja não darmos atenção demasiada à questão da uniformidade, e sim de nosso empenho em ver os problemas como meros obstáculos. Pois, acho eu, é mais fácil resolver microproblemas(?) como nossa dívida no banco do que completar um cubo mágico. Aliás, menti quando disse nunca ter conseguido completar as cores do cubo mágico. Consegui sim, mas desmontando o brinquedo com uma chave de fenda e reagrupando as cores todas certinhas. Mas desse modo não vale. Como não vale também desmontarmos nossos problemas com chaves de fendas e moldá-los como gostaria que ficassem - solucionados – e não como são, e interferem em nosso dia a dia.
E você, já montou um cubo mágico? (sem chave de fenda, é claro)
Escrito por PRADO_VINICIUS às 13h41
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VIAJANDO NA MAIONESE
vbcprado@gmail.com
Você já sonhou em ajustar seu relógio pelo Big Bang, subir o Monte Everest, percorrer o Caminho de Santiago, pegar uma lasca do muro de Berlim, beijar o pé do Cristo Redentor, navegar pelos canais de Veneza ou ver seu a torre de Pisa realmente é torta?
Nossa imaginação nos leva aonde sempre gostaríamos de ir, mas sempre ficamos com aquele gostinho de decepção por não presenciar nossa vontade ao vivo e em cores. Perguntamos se tudo não passa de uma fantasia, ilusão, mero desvio da mente. Afinal, sonhos não têm preço. Muito menos dinheiro para bancar nossos caprichos, viagens. Porém, seria interessante constatar se as geleiras da Antártida realmente derretem, ou se a torre Eiffel é tão bonita quanto as fotografias de revistas tratadas no photoshop.
Sonhos e viagens são como a loteria: sempre apostamos, ilusoriamente, na possibilidade de conquistar. Mas se não tivéssemos ilusões, encanto pelo distante, teríamos o porquê de viver? Afinal, se não viajássemos na maionese, como dizem, seríamos mais conscientes? Creio que não, pois até o mais cético dos mortais sonha em conhecer lugares – não apenas físicos – que outrora nunca pensara.
O encanto pelo distante, a incontáveis quilômetros de distância, nos remete ao prazer de ver um mundo diferente do que temos, aqui e agora. Nossa vontade de ver o novo é mais forte do que enxergar nosso próprio mundinho, que se resume a uma volta pelo shopping ou um passeio por um município vizinho.
Essa é a questão. O que outros lugares além-mar têm além de exuberância, glamour? Talvez a capacidade de nos dizer o que falta onde vivemos, servindo de modelo não para orientar nossa beleza, mas nossa conduta. Nos apegamos a outros lugares, culturas, por não valorizar nosso espaço, nosso bairro, nossa cultura.
E você leitor, já sonhou em ver o Mickey Mouse na Disney ou conferir La Bombonera no país dos hermanos? Conte-me uma viagem que você fez/faria através de meu e-mail: vbcprado@gmail.com. Conhecer novos amigos online também é uma forma de viajar. E não sai tão caro quanto um Big Mac em Paris.
Escrito por PRADO_VINICIUS às 13h41
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LEITOR NO DIVÃ
vbcprado@gmail.com
Editoras de livros de todo o país registram uma crescente demanda pelos livros de auto-ajuda, filão que direciona uma conversa de comparsas na solução de problemas do leitor. A maioria com fórmulas pré-fabricadas na preparação do sucesso, dizem como certos comportamentos influenciam na carreira ou qualquer área que você deseja prosperar.
Livros engraçados, no mínimo, pois tratam o leitor como um paciente deitado no divã, despejando sobre seus ouvidos frases do tipo “não se preocupe, você está no caminho certo”. Aliás, um livro de auto-ajuda nos parece nossa mãe naquela fase em que estamos aprendendo a andar de bicicleta. “Vamos filho, só tem mais um metro, vamos”.
Se eu fosse escritor machadiano (sem as longas barbas de D. Pedro, é claro), e escrevesse um livro de auto-ajuda, mudaria até o termo auto-ajuda, para começar. Seria se ajude. A segunda mudança seria a sinceridade. Nunca escreveria “cultive melhor suas amizades”. Diria: “seja menos puxa-saco”. E a última e principal mudança: exercícios práticos. A cada dia a pessoa teria uma tarefa a executar, acumulando pontos. No final somaria para ver a pontuação e mudança conseguida.
Quem sabe criaria um filão de literatura realmente eficaz? Não, pensar longe não é defeito. Os livros de auto, quer dizer, se ajude que o digam. Nem preciso ganhar prêmios ou um lugar na Academia Brasileira de Letras. Conseguindo um trocado para melhorar minha vidinha já está bom. Já é uma forma de prosperidade que meus leitores verão na prática, e seguirão sem medo de errar.
Essas mudanças nessa literatura sem sal teriam um apelo melhor. Afinal, se a pessoa deseja prosperidade, eficiência na comunicação é essencial. Aliás, ter criatividade num ramo em que tudo é igual é essencial. Olha, está aí o título do primeiro capítulo. Só me falta não cometer o mesmo erro dos livros de hoje, que é tratar a todos como um paciente, não como um aprendiz...
Escrito por PRADO_VINICIUS às 13h41
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MEROS SIMBOLOS
vbcprado@gmail.com
Com a páscoa em nosso encalço, logo vemos em todos os lugares propagandas de inúmeros tipos a nos ofertar chocolate. Preto, branco, sem açúcar, light, enfim, uma infinidade deles. Claro, sem se esquecer do coelhinho, símbolo mestre da data. Na maioria das vezes branco e barrigudo (até na venda de chocolates light), com uma cara de chorão, incitando aos consumidores para que comprem.
Nessas mensagens subliminares de consumo, dá para se ter uma idéia privilegiada de uma data como essas em nosso calendário. Um símbolo às vezes representa muito mais que o próprio significado. É assim com os corações no dia dos namorados, com brinquedos nos dias das crianças. Uma lavagem cerebral nos fez prestar atenção à data que a mídia moldou. Não ao que deveria representar realmente.
Nossa cultura carente de valores se apega tanto a símbolos, que a falta deles gera um vazio sem explicação. Algo como ligar a TV e não enxergar cores, embora elas não distorçam a imagem totalmente como imaginamos. Com a páscoa ou qualquer outra data acontece o mesmo.
Damos a um simples chocolate a conotação que ele não tem. E o presenteamos para nos pouparmos de dar uma simples saudação de boa páscoa, pois presentear é mais fácil que dar um aperto de mãos.
Os símbolos, reais ou imaginários, pessoas ou objetos, foram criados para termos uma referência, algo para nos identificarmos com uma causa ou julgamento. Hoje, porém, há símbolos não só na páscoa que remetem a valores que outrora eram outros. Não que o coelho ou chocolate tenham mudado nossa mente, nada disso. O problema foi nossa mudança de comportamento com algo que perdeu sua finalidade, seu conceito. Não pensamos na páscoa, e sim nos presentes. Não pensamos, simplesmente.
Então, rever conceitos, nessa data ou qualquer outra, deve ser algo muito mais proveitoso. E pensando melhor, muito chocolate dá cáries e nos engorda (como o coelhinho da maioria das propagandas)...
Escrito por PRADO_VINICIUS às 13h41
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BIOGRAFIA DO MUNDO
vbcprado@gmail.com
Se houvesse uma biografia do mundo, como ela seria? Começaria pelas coisas ruins, como nas biografias de alguns políticos, ou retrataria primeiro seus feitos, grandezas, benfeitorias?
Essa dúvida seria a primeira dentre tantas outras na escrita de seus capítulos. Talvez apenas um livro não desse para remontar sua história. Talvez uma coletânea divida em vários volumes seria o início de uma história bem contada. Mas calma aí, qual história? Aquelas histórias desde seu nascimento, da época do Big Bang? Mas que capítulo chato, sem sal. Que tal começarmos com os dinossauros, seria algo descolado...
Depois teríamos um capítulo apenas falando de vulcões. Sim, vulcões são a mostra de uma evolução geológica que valorizaria qualquer tema. Já o terceiro capítulo seria sobre a aparição de um ser que mudaria sua trajetória de modo drástico, sem precedentes, e talvez até enigmático. Ser que teria evoluído de espécie animal. Evoluído? Boa! Uma polêmica sempre vende livros de biografias.
Esse ser, teve, desde então, uma relação sem igual com o mundo, mudando drasticamente a trajetória deste. Uma companhia que traria à tona uma questão: o mundo não seria mais o mesmo.
Depois de falar da evolução dessa nova espécie, falaríamos nessa biografia sobre as peripécias. Momentos como furacões, dias de geleiras, e também seus momentos de rebeldia, como personalidade forte e quente. Quente mesmo, pois sua temperatura nos seus últimos dias de vida aumentaria muito. Uma febre que não passa com um simples comprimido, assim dizendo.
Mas calma aí. Como qualquer biografia, há sempre um autor. E quem seria esse autor, que pesquisaria a história do mundo e transformaria numa biografia inédita e bombástica como essa? Aliás, quem a leria? Que editora a publicaria?
Pensando melhor, escrever uma biografia não seria uma boa idéia, pois imaginaria até um título plausível: “A outra face – o antes, o depois”, e que não calharia com uma biografia de renome. Afinal, biografias devem contar feitos de quem é foco de sua história. E nessa biografia, o mundo seria um mero coadjuvante. Um ser que evoluíra(?) do macaco tomaria boa parte desse livro. Não como um amigo do mundo, mas sim como um vilão, digno de filmes, e não de livros.
Escrito por PRADO_VINICIUS às 13h40
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MAIS VELHO DO QUE SOU
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Às vezes, eu me sinto mais velho do que realmente sou. Ouço músicas da década de setenta, que meu pai tanto venera, e de um modo inexplicável, parece que vivi aquela época, apesar de ter nascido uma década e pouco depois.
Você já teve essa sensação? Ter o seu avô lhe contando sobre a infância dele e então sua mente se depara com uma situação que parece você mesmo ter vivido? Eu daria a isso um nome: nostalgia não presencial, aquela que de algum modo vivenciamos, mas só na nossa cabeça. Parece complicado, mas é simples, pois não vivemos uma situação da década da pedra, mas diante de tantos comentários e livros de história, nos incorporamos como personagem daquele momento. Seria como ler a biografia de Bonaparte e sentir-se o próprio Bonaparte, entende?
Tenho mais certeza disso quando vejo documentários na Tv sobre copas do mundo, daqueles que Pelé ainda era rei. Pela onipresença das imagens preto e branco, e aquele ar de simplicidade que hoje não se vê, tem-se a impressão que se vive na era errada. De ter nascido num momento diferente.
Claro que isso é mera viagem mental, mas às vezes seria interessante viver no momento em que o homem foi à lua ou presenciar novelas do Lima Duarte em que ele ainda tinha cabelo. Também ter visto Niemeyer construir Brasília, ou um show dos Beatles e Elvis Presley pela Tv de tubo, ainda revestida por uma camada de madeira, aqueles eternos trambolhos...
Viu como ter nostalgia não presencial é algo estranho? É como se tivéssemos breves reminiscências após ter batido a cabeça. Uma perda de memória em que falta algo.
Mas deixa o passado para lá, afinal, décadas ou milênios além-mar, são outras vivências, modos de viver. Devemos virar a folha do calendário e pensar no agora. Mas que seria engraçado ter visto Hitler presenciar um negro a vencer nas olimpíadas ou viver na época de Da Vinci para provar se a modelo Monalisa ria de fato, nos dão uma sensação de leve nostalgia, simplesmente não presencial. Presente apenas na máquina do tempo de nossa imaginação...
Escrito por PRADO_VINICIUS às 13h40
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ASTERISCOS. TÃO POBRES. TÃO RICOS
vbcprado@gmail.com
Todas as vezes que vejo um jornal comercial com ofertas de eletrodomésticos, móveis ou afins veiculadas por grandes lojas, sempre há um asterisco a marcar quase invisível o preço a prazo do produto anunciado. Se aquele telefone celular custa 900 reais com pagamento à vista, lá está o tal asterisco a marcar 1050 reais para pagamento parcelado, sempre especificado no rodapé da página, quase inotável.
Porque não discriminar o valor a prazo visivelmente, assim como o outro valor? É uma forma de enganar ou dizer que aquilo pode ser mais caro? Este é apenas mais um exemplo das inúmeras situações que iludem pessoas, por um simples sinal gráfico. Há outras situações em que os asteriscos, gráficos ou imaginários, permeiam nossa mente, e distorce nossa realidade. Quantos de nossos políticos são reeleitos prometendo inúmeras mudanças, e logo depois de consumada sua candidatura, seus discursos se resumem a senãos, construindo os chamados governos asteriscos? Que têm sempre explicações nos rodapés, dizendo o que antes não se via, pois era... quase inotável, diante da então euforia de pleiteamento?
Quantas situações presenciamos em que tudo que acontece de ruim é explicado somente no fim, por um belo e pequeno asterisco chamado lamentações e lembranças? Sim, um asterisco não deveria se chamar asterisco, mas desatenção. Desatenção porque sempre o notamos apenas depois de assinarmos contratos que nos desfavorece. Contratos de inimizades que antes pareciam firmadas. Contratos de atitudes que antes pareciam certas. Enfim, contratos com rodapés cheios de incertezas, que parecem menores por simplesmente não serem notados, embora existam.
Não leitor, não estou fazendo comparações absurdas. Atente-se: todo início de ano há sempre os que prometem fazer as pazes com o vizinho, trabalhar menos e dedicar mais tempo aos filhos. Uma série de atitudes traçadas para a renovação, mas que morrem logo na virada de calendário, sem nunca terem começado. Asteriscos de ilusões. Asteriscos porque sempre são explicados e entendidos a segundo plano, jogados no rodapé entre as entrelinhas da vida. E percebidos apenas quando se tenta justificar um erro, um desacordo, ou simplesmente perceber o real valor de algo movido a juros numa loja de móveis.
Então, pergunto: quais os reais valores que podem ser explicados por um pequeno asterisco, e consumados por uma bela ação? A resposta talvez fosse eliminar asteriscos de nossa vida, e tornarmos cada minuto algo importante, e não mero coadjuvante, como acontece com os asteriscos numa propaganda de celular.
Escrito por PRADO_VINICIUS às 13h39
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VOCÊ JÁ VIU SEU UMBIGO HOJE?
vbcprado@gmail.com
Quantas vezes nos deparamos com alguma pessoa que se importa demais consigo mesma e deixam os outros em segundo plano? Ou dão às outras pessoas uma importância insignificante? Por isso pergunto: você já olhou seu umbigo hoje? Desculpe a franqueza, mas antes de constatarmos os defeitos alheios, vamos enxergar a nós mesmos? Será que também não estamos com essas características que tanto abominamos?
Numa sociedade que clama por evolução, sentimos uma verdadeira falta de compreensão. Lojas têm horários estendidos, novos shoppings são inaugurados e novos produtos são lançados para suprir a demanda de uma sociedade cada vez mais egoísta, que se apega aos bens materiais que julga preencher uma vazio que tem, um vazio que construído pela falta de cooperação, mutualismo.
Toda vez que se fala em novo mundo, vem à mente uma imagem sem molde, mas muito nítida de conceitos, novos conceitos. Conceitos, infelizmente não tão válidos quanto à realidade que gostaríamos de presenciar, por atrelarmos a felicidade ao nosso umbigo, no sentido mais egoísta da palavra.
Por isso pergunto se você já olhou seu umbigo hoje. Para tocar na mente aquele diabinho e anjinho que teimam em confundir nossa mente. Para termos a certeza de que o mundo externo não está deste modo porque os outros o fazem, mas por estarmos inertes ao que se passa de ruim do lado de fora de nossa casa e consciência.
Mudar o mundo é pura heresia, alucinação. Mas querer seu melhor é primeiramente aceitá-lo como é, e apreciar o que tem de bom. Olhar nosso umbigo vai além de levantarmos a camisa e abaixar os olhos. Está em vermos um mundo consumido pelo nosso desinteresse, principal inimigo de nosso século. Então amigo, baixe a camisa, e veja além de seu umbigo. (vbcprado@gmail.com)
Escrito por PRADO_VINICIUS às 13h38
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Mais um anuncio para posteridade. Portifólio está crescendo:
Escrito por PRADO_VINICIUS às 10h31
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Escrito por PRADO_VINICIUS às 10h16
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Escrito por PRADO_VINICIUS às 09h55
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VELHINHO NO ÔNIBUS
- Gostaria de pedir a vocês apenas uma colaboração, mínima que seja, para alimentar minha família, pois estamos passando necessidades...
A fala acima presenciei várias vezes em minhas idas e vindas tomando condução em ônibus público. Há sempre quem se aproveita da boa vontade alheia para pedir uns trocados no coletivo, em qualquer momento oportuno. Há os que apelam levando seus filhos vestidos em maltrapilhos apenas para tornar mais verossímil a cena. Também há os criativos, que distribuem entre os passageiros impacientes bilhetinhos pedindo contribuições. Porém, independente da situação, logo que descem do coletivo, ao menos alguém pensa se aquilo que falaram é verdade.
Digo isso porque certa vez fiquei tão comovido com um senhor de bengalas que declamou sua vida no coletivo, que estava cheio, que até lhe dei uma boa gorjeta. Aliás, muitos no ônibus o fizeram. Qual não foi minha surpresa quando no dia seguinte o vi saindo de um ônibus (provavelmente pedindo “contribuições”), e surpreso o verifiquei contando as moedas ganhas, que eram muitas. Logo que desceu, encaminhou-se para uma padaria e pediu uma garrafa de uma bebida hiperalcóolica. E pagou a cachaça com as “contribuições” arrecadadas.
Segui meu trajeto, mas me senti inteiramente iludido por tal cena. Provavelmente o senhor, que nem bengalas usara desta vez, vivia da boa vontade alheia por umas boas doses de álcool. Desde então, tenho sido inteiramente cético com pessoas que se dizem necessitadas. Não que todas estejam realmente mentindo sobre sua real situação, mas quando somos enganados de forma tão impensável como esta, pensamos duas vezes antes de dar atenção a qualquer um que diga sua vida num ônibus lotado.
Num século de transformações, como todos afirmam em dizer, há mudanças que me incomodam, e uma delas é a falta de sinceridade das pessoas, mesmo para se manterem com o mínimo para sobreviver. Dificuldades todos enfrentam nessa sociedade egoísta, mas cenas do gênero fazem todos serem individualistas, uns por desconfiança, outros por simples medo de se iludirem – assim como eu fui.
Não condeno o tal velhinho por tal feito, pois sua vida provavelmente não deve ser fácil, e com isso desconta todas suas amarguras na bebida. Mas penso que há situações mais estarrecedoras que esta, em que traem nossa confiança num estalar de dedos e nem desconfiamos.
Essa é o ponto: confiança. Atualmente não se confia nem na própria sombra, como diz o velho ditado. Nem mesmo na sombra dos outros, encobertas, talvez, pelas mentiras. Talvez seja esse o problema daquele velhinho: alguém deve ter traído sua confiança. A saída que encontrou foi trair a confiança de outros.
Escrito por PRADO_VINICIUS às 09h40
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REFINAMENTO SEM SENTIDO
www.pradovinicius.zip.net
Era o evento do ano, tinha me preparado o suficiente para não pagar nenhum mico. Chego ao salão já cheio de convidados. Dentre tantos, não encontro um com quem possa conversar, ou digamos descontar meu nervosismo com amenidades que acontecem nessas ocasiões.
Preocupado com o visual, via em todo momento se o meu sapato, comprado em longas prestações especialmente para a festa, estava lustrando o suficiente para não dizerem “olha, um zero à esquerda naquele canto, não tem glamour algum”. Eu, que sempre fiquei distante de tantos refinamentos, um tanto fúteis, diga-se, sempre via etiqueta apenas em minhas camisas sem estampas, sem saber que também caracterizava bom comportamento em sociedade.
Sentado tomando um vinho de doze anos (alias, para quê esperar doze anos para tomar vinho se podemos tomar logo que é feito?), esperava meu chefe chegar para fazer os cumprimentos. Festa de chefe justo no mesmo dia da final de meu time é dose. Mas fazer o quê, futebol não me garante o salário no fim do mês. Perdi o jogo e meu dia.
Longos minutos depois chegou meus amigos, tão apreensivos quanto eu, bebendo aquele vinho de gosto estranho e uma salada que tinha azeitona por cima. Conversávamos todo o tempo sobre o trabalho, sobre a final do campeonato, mas nada, nadica de nada, sobre o aniversariante. Pensávamos em nosso chefe tanto quanto ele em nós.
Arrumando a gravata toda amassada, vi entrar pela porta a mulher do chefe, tão branca quanto um esquimó por falta de sol. Enfeitada com correntes por todo o braço, parecia um ambulante vendendo bijuterias no semáforo; definitivamente a palavra discrição não era conhecida por um ser daqueles, equilibrado num salto agulha enorme. Pela primeira vez me senti confortável, pois e até a mulher do chefe não tem “refinamento”. Não estou tão mal assim.
Na hora de cantar os parabéns, havia só bajuladores ao lado do “chefinho”, dando cumprimentos e abraços-de-onça. Também o fiz, mas sem delongas, entregando uma camisa listrada como presente, pensando em fugir correndo para casa assistir a final do campeonato.
Dentre tantas pessoas interesseiras, senti que aquele ambiente de glamour não era para mim. Confirmei isto logo que saí pela porta de acesso. O segurança me barrou e disse: “a saída de funcionários da limpeza é pelos fundos...”. Dei de ombros e fui embora, ciente de que tudo naquela festa era sem sentido, talvez por eu não me preocupado com que os outros pensam de mim.
Ligando a TV, já em casa, vi que meu time perdeu o campeonato.
Que dia de cão...
Escrito por PRADO_VINICIUS às 09h38
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HISTÓRIA EM QUADRINHOS
Sob forma rabiscada, vivemos em uma história em quadrinhos. Cada um ao seu modo, a história (ou seria estória?) é moldada em enredos únicos, mas que se cruzam instintivamente com outras histórias. Seria o mesmo que se a história do Batman cruzasse com a do SuperMan. Mas porque disso? Simplesmente pela convivência que os super-heróis não têm: os relacionamentos externos.
A cada dia que levantamos, uma nova tirinha se faz, nos tons coloridos ou preto & branco, mas com teor que nós mesmos desenhamos, com balões de convivência que só quem visualiza com outros olhos entende. Algo com começo, meio e fim. Fim que se torna o começo da tirinha de amanhã, e assim por diante.
Nessa dinâmica toda, almanaques são feitos, personagens adicionados às nossas histórias e lugares impensados incorporados ao enredo. Algo como Turma da Mônica, que é dividida entre infindáveis núcleos co-relacionados.
Se fóssemos personagens, seríamos tão caricatos a ponto de rir de nós mesmos, de modo instantâneo e sutil. Algo como se ver no espelho, e encontrar traços e cores sem sombras, em linhas cor de ocre, em uma época que os quadrinhos não explicam, não contam.
E para continuar, nossos livrinhos com histórias seria largados às traças num sebo qualquer, valendo meras moedas e vendidos a um desinteressado qualquer que dê um valor que outrora não tínhamos.
Diante dessas perspectivas, deve-se ter consciência de uma coisa. Devemos ser o cartunista, e não a personagem. Devemos ser o contexto, e não conseqüência deste. Devemos ser a história, e não sua refém. Devemos simplesmente viver em uma história em quadrinhos, com tirinhas infinitas, e nunca, ao seu término, ter a palavra FIM encerrando o rodapé.
Escrito por PRADO_VINICIUS às 09h37
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VOLTA ÀS AULAS
- Pai, quero aquele que tem o Batman na capa.
Todo início de ano é assim. Pais correm para as papelarias logo que as aulas dos filhos começam, e levam os pequenos para as compras de materiais escolares, se arrependendo por isto depois. É engraçado ver crianças chorando por não terem o estojo ou caderno do super-herói preferido, pois a cada ano o orçamento dos pais fica mais e mais apertado.
É uma dinâmica invertida: enquanto as prateleiras se enchem de variedades, com lapiseiras que piscam e mochilas multicoloridas, os pais têm o orçamento cada vez menor para bancar o desejo dos filhos, alienados por apontadores que têm um ursinho ou uma barbie como enfeite.
Os materiais escolares perderam as funcionalidades a que se destinavam. Um apontador não serve para afinar as pontas dos lápis, e sim para enfeite de mesa. Um fichário não serve para fazer anotações, e sim para dizer o amigo que a estampa dele não é tão bacana assim. Enfim, tudo se tornou simplesmente visual, e perdeu sua forma. Será que perdemos nossos conceitos, nossa visão do que é ou não necessário?
Talvez sim, pois desde pequenos nossas crianças deixam de lado conceitos que tempos atrás eram inerentes à idade: inocência. Para elas, impressionar o amigo de classe é mais importante do que o esforço dos pais para adquirir o material. E, na maioria dos casos, os pais dessas crianças não tiveram tantas “regalias” em suas infâncias.
Claro que esta é apenas uma situação em que nosso mundo mudou, e acelerando cada vez mais para um cotidiano diferente, recheado de situações de plenas possibilidades. Porém, com esta volatibilidade toda, há uma questão que não muda: desde crianças já nos alienamos por um mundo dispensável, chamado futilidade.
Mas, cá entre nós, ter um caderno com a capa dos powerrangers não é nada mau. Pode me chamar de alienado por isso.
Escrito por PRADO_VINICIUS às 09h36
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Escrito por PRADO_VINICIUS às 10h09
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LI NO JORNAL
Hoje eu li no jornal que não havia bomba pela minha janela. Li que não havia meteoritos longe no espaço. Também li que no Brasil não há mais pobreza. Vi que não havia mais desempregados.
Como manchete, percebi uma foto que nunca pensara: o rio Tietê limpo, cheio de peixinhos. Também vi que o jornal estava com cinqüenta páginas a menos, logo este jornal que é o maior do país e chega a ter tiragens de 150 páginas por dia. Raciocinei e descobri o porquê: não há notícias ruins, nenhuma sequer. Com exceção a de que meu time caiu para a segunda divisão. Fora isto, nem meu horóscopo (nem os outros onze), aconselheva a ter cuidados com a saúde ou que a situação financeira estava ruim.
Na seção policial, havia apenas uma entrevista com um delegado que está a fazer 30 anos de profissão. Nenhuma informação mais, apenas uma breve descrição daquele senhor de longos bigodes. Na seção de opinião, não se criticava ninguém, nada. Apenas se emoldurava o belo cenário político e econômico do país.
Fiquei paralisado por segundos a pensar naquelas notícias, nunca antes vistas por ninguém, e juntas.
Por falta de otimismo, sempre procurei notícias ruins pelos cadernos, até porque aquilo se tornara uma constante. Aliás, aquele jornal era sensacionalista o suficiente para nunca dar destaque a coisa alguma que agradasse alguém mais otimista que eu.
Fui à banca de jornal e comprei mais cinco. Todos, sem exceção, não veicularam qualquer tipo de mensagem negativa, por menor que fosse, em suas páginas normalmente recheadas de tragédias e fatos obscuros.
No noticiário de TV, falavam da recente descoberta da cura do câncer e AIDS, além de destacarem que o aquecimento global fora controlado e que não há mais grupos radicais do outro lado do mundo.
Na rua, observava todos a comentar o novo mundo, que até unira meu vizinho da esqueda com o da direita, que não se bicavam há anos.
Nesse dia acordei com o pé direito, como diriam. Mas não. É apenas um dia no futuro que espero que aconteça. Pode ser amanhã. Ou depois. Ou mês que vem. Não importa.
Mas não quero vê-lo apenas no jornal. Quero vivê-lo. Cada hora de suas vinte e quatro.
Escrito por PRADO_VINICIUS às 10h08
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QUAL É A MÚSICA?
Há quem sempre diga que uma boa música enaltece um momento, um acontecimento, um instante. É como um passaporte de lembranças que é carimbado a cada vez que se ouve uma nota, um refrão, uma batida emoldurada com um quê do momento.
Nos relacionamentos, por exemplo, sempre lembramos das pessoas, muitas vezes, através de uma música que ela gosta ou uma rima daquela canção que nunca decoramos. Nos filmes, lembramos do ator principal através daquele ritmo sonoro que permeou a fita inteira, recheada de cenas que nunca lembramos ou atores que não deram conta do recado. Porém, ao colocar um disco no aparelho de som e ouvir a canção, parece que revimos aquele filme em apenas cinco segundos, apenas ouvindo a trilha do filme.
O engraçado, em qualquer situação, é que o silêncio não faz nenhum sentido, a não ser em troca de olhares.
Certa vez diminuí ao máximo o volume da TV enquanto via o show de uma banda que sou fã número um, e vendo aquela cena muda e só com bocas e instrumentos a tocar, sem som, percebi que a TV transmite idéias não pelas imagens, e sim pelos sons. Principalmente quando acontece um show com belas músicas a tocar como aquele.
De um modo ou de outro, a música condensa o que outras artes não conseguem passar de uma maneira tão sutil e ampla, possibilitando uma união de idéias sem igual. Claro, como qualquer arte, música tem suas “tribos”, seus nichos de gostos, ideais. Isso significa que mesmo odiando o meu vizinho a ouvir um baita pagode em pleno sábado em frente à minha janela (no mínimo torturante), devo ter o mínimo de tolerância com sua preferência musical, pois a música é a mais democrática das artes, e devo respeitar o espaço alheio.
Preste atenção: sempre ouvimos um resquício do que se pode chamar de música, em todos os lugares e situações, mesmo sem ligar o aparelho de som ou mp3 player. Ouvir o som harmônico da natureza ao sair pela manhã para o trabalho é um belo exemplo da música sem ritmo que conhecemos. Principalmente a música que se forma quando a chuva cai numa tarde de verão. Acontece também quando imaginamos a trilha do comercial de TV daquele refrigerante que bebemos no intervalo do trabalho, em que há uma moça no banco e o celular do carinha do lado toca – enfim, lembramos não do comercial, mas sim da sensação que a música propiciou.
Por isso completo: não há um cotidiano sem sons, nem uma vida sem ritmos. Senão não teríamos dois ouvidos para contemplar uma bela música e uma boca para se manter fechada para que não atrapalhe o som do mundo exterior.
Escrito por PRADO_VINICIUS às 16h57
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VAI ALPISTE AÍ?
vbcprado@gmail.com
Dia desses meu irmão ganhou um passarinho, que ainda nem decorei o nome. Preso em uma gaiola mais bonita que ele. Fica boa parte do tempo parado, observando o ambiente, o passar do tempo. Só se movimenta pra valer logo que amanhece, assoviando um canto estridente.
Se eu fosse um passarinho, sentiria falta de ar só em pensar em... uma gaiola. Com roletes de alumínio a me prenderem, morreria de tédio, apesar da boa vida dispensada a um ser de duas asas. Tédio, eis a palavra certa. Será que pássaro sente tédio? Esse de meu irmão eu não sei. Pois vive enjaulado desde que nasceu.
Num panorama diferente, especificamente uma jaula sem roletes de alumínio, denominada rotina urbana, questiono se é preciso ter grades reais para nos sentirmos presos, assim como o tico-tico de meu irmão. Ter uma rotina de casa-trabalho, trabalho-casa, tão comum numa sociedade de regras e protocolos, já não é uma gaiola diminuta e um tanto assustadora para uma sociedade que sempre buscou a liberdade, o diferente?
Não sei a resposta, mas me arrisco a dizer que buscamos vôos a lugares distantes todo o tempo, e esquecemos que estamos sempre no mesmo lugar. Daria um nome a isso: medo.
Somos um pássaro enjaulado por um dono que nos esqueceu de soltar, um elefante que desde pequeno tentou se libertar da corda, e mesmo depois de crescido tem o olhar no passado sem saber que pode romper o cordão sem problemas. >
Depois de pensar tanto, concluo que na vida passada fui um pássaro enjaulado. De tanto tédio, renasci pensando. E analisando melhor, apesar de enjaulado, talvez tenha tido uma vida melhor apenas assoviando a essa de grades invisíveis.
Sem falar no jiló que o tico-tico come (pois odeio jiló), hoje me sentiria mais livre da rotina enjaulado como ele do que aqui do lado de fora.
E quanto a você, vai um alpiste aí?
Escrito por PRADO_VINICIUS às 10h22
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DOIS LADOS Desde que me conheço por gente, quase todas as coisas têm dois lados: o branco tem o preto, o positivo tem o negativo, o bem tem o mal, e o vazio tem o cheio. Nunca fui de meio termos, mas esse vazio que antagoniza o cheio nunca me convenceu. Porque estereotipam conceitos em torno de dois lados distintos, se o meio termo sempre é o melhor modo de ter-se um aperto de mão? Explico: sempre argumentamos com alguém o porquê de tanta guerra pelo mundão afora. Ouço aturdido, embora alheio ao mesmo pensamento, sempre percebendo que grandes reviravoltas acontecem com acordos entre dois lados, ou seja, uma linha reta que foi definida em sua metade, eqüidistante igualmente entre dois lados - o meio termo. Em um mundo tecnológico, esqueceu-se da essência, do outro lado, tão distante quanto a idade que a criou: a simplicidade. Ao alcance de cliques e comandos no controle remoto, esquecemos de sermos simples, de preferir conversar ao computador que pessoalmente, de mandar recados por outrem que frente a frente. Enfim, a essência que digo não está apenas em meios termos, mas também em atitudes que temos por culparmos a falta de tempo. Se o outro lado do sol é a lua, o outro lado da simplicidade é a compreensão. Se pescar no fim de semana nos desestressa da correria urbana, é porque chegamos a ponto de desejar tanto algo, que a obsessão nos cega da essência de uma criança que perdemos, que não mais temos. Se enxergássemos o preto e branco em vez do colorido, nossa visão de mundo realmente seria diferente, talvez mais viva, pois os detalhes que passam despercebidos seriam melhor identificados, porque só valorizamos as cores quando o arco-íris vai embora, e o meio termo entre o que passou e o presente é distante apenas de um segundo de atenção. Odeio meio termos, mas os prefiro em detrimento de lados nada consistentes, chamados de imposição.
Escrito por PRADO_VINICIUS às 10h45
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Escrito por PRADO_VINICIUS às 16h26
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ALÉM DA COLINA vbcprado@gmail.com
O tempo, em sua definição mais misteriosa – a que medimos através do relógio, parece um sol por detrás de uma colina, sempre sério e incerto quanto ao seu brilho, assustando cada um de nós, que estamos sempre de óculos escuros, não reconhecedores do seu brilho, por medo de nos cegarmos com sua grandeza. Atrás desta colina há os medos, incertezas, enfim, o futuro que se delineia pelo sol tempo, que às vezes se esconde atrás das nuvens e mostra que tempestades são temidas tanto quanto o que está além daquele horizonte. Embarcamos num helicóptero para tentar descobrir em sobrevôo o que esconde ali, bem ali, além do arbusto no topo do morro, florescente e um tanto desafiador. Quando cai a chuva, lá vamos nós escalar outra vez a colina para tentar ver o amanhã; porém, quando chegamos enfim a ver o que até então desejávamos, somos surpreendidos pela noite arrebatadora, de que tão bela nos encobre de ver o que há noutro lado. Esta noite tão famosa é mais conhecida como passado. Noite que dá lugar a mais um dia, que por sua vez ostenta outra colina que novamente tentaremos superar com nossos olhares, nossa curiosidade e medo. E aí, em algum dia ensolarado, essa colina forte e presente diante de olhares esmorece, sobrando apenas pedregulhos e resquícios de vida, sobrando apenas o dia e a noite. Nada mais. Nem arco-íris, muito menos estrelas. Somente o ponteiro do relógio em compasso delirante, pronto a nos sufocar. Sufocar até tomar todo o céu todo nublado pela contagem regressiva da vida.
Escrito por PRADO_VINICIUS às 16h23
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não gosto de escrever textos deste tipo, mas a ocasião é + do que especial
PAI FUTEBOL CLUBE
vbpcprado@gmail.com
Organizando o baú do passado, encontrei carrinhos sem rodinhas, quebra-cabeças incompletos e também o álbum de figurinhas que ganhei na infância. Nesse álbum havia a seleção chamada Pai Futebol Clube. Jogando apenas com um jogador, essa seleção venceu inúmeros campeonatos e torneios, como a Copa Super-Homem e também a Recopa da Esperança.
Sem figurinhas repetidas nem times trocados, o álbum tinha destacado o PFC em suas páginas devido não só às conquistas, mas também ao grande apoio da torcida organizada chamada família. Folheando melhor encontrei a foto em que vi o grande troféu, aquele que valeu por todos os outros. Desenhado pela confederação da vida, era constituído em ouro maciço de inestimável valor, representando o craque do time com o técnico ao seu lado.
Trocando de página, encontrei o pôster do principal e único jogador do time, bem disposto e tão jovem quanto o futebol, em uma pose de dar inveja a qualquer modelo. Estava ao lado da bandeira do time, no campo ladeado por uma torcida gritando e incentivando seu time.
Na última página encontrei estampado o mascote do time, atento e de aspecto imponente, tão forte quanto seu único craque. Este mascote era representado pelo leão, que sempre protege sua defesa quando o time está perdendo e apóia o contra-ataque em partidas difíceis.
Ao fechar o álbum, percebi que para preenche-lo por completo precisei torcer, ajudar e também ser técnico dessa seleção que não há cromos repetidos, cromos recheados por um ataque que nunca cairá para a segunda divisão.
Daqui a um tempo espero ter o meu próprio álbum também, recheado com bons troféus e medalhas estampadas em figurinhas que nunca se repetem.
Escrito por PRADO_VINICIUS às 17h10
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AS APARÊNCIAS ENGANAM (parte I)
vbcprado@gmail.com
Entrou no estabelecimento prestes a pedir o produto, mas rodopiou entre as prateleiras até chegar ao balcão da atendente, agora determinado:
- Gostaria de saber se você vende esfoliante para a pele?
- Senhor, se é esfoliante, claro que será para a pele. Mas o esfoliante para homens é mais caro, gostaria de levar um?
- Por que mais caro? Já que não se cuidam tanto quanto as mulheres, os homens deveriam ter preços mais acessíveis para produtos de beleza, oras!
- Devido a pouca procura, o preço torna-se mais alto – retrucou a impaciente moça.
Pensou, pensou, e decidiu levar o produto de preço altíssimo só para não ficar mais desconcertado diante da atendente, de que tão feia, deveria usar um pouco mais os produtos de beleza que vendia. Ou usar algum mais eficaz, pois seu arsenal de cremes que provavelmente usa são nada generosos.
Ao chegar em casa, subiu logo para o quarto, despistando a mulher. Abriu a gaveta da cômoda, que raramente a esposa abria, para esconder aquele produto que comprara na farmácia. Ao ouvir passos na escada, agiu como se nada houvesse ocorrido.
- Oi amor, por que você nem deu oi lá embaixo? Algum problema?
- Que isso, Rosa, apenas subi rápido por achar que você estava na vizinha. Alguma novidade?
- Nenhuma, apenas de que você esqueceu de comprar fralda para o Júnior na farmácia. O que comprou na farmácia?
- Como sabes que fui à farmácia?
- Simples, olhe a sacolinha sobre a cama.
- Não comprei nada amor, apenas é a sacola que coloquei o guarda-chuva molhado.
Depois de baterem um papo frio, ela desceu. Ele, ansioso para usar o produto que comprara, logo se trancou no banheiro para tornar-se mais jovem com aquele esfoliante de alto preço. Saiu do banho realizado. Parecia ter dez anos a menos. Dormiu com alegria de criança.
Porém, ao levantar da cama no dia seguinte, sentiu o rosto todo inchado, e uma quentura sem tamanho em volta dos olhos. Viu a esposa dormindo e logo correu de fininho para defronte o espelho. Parecia aqueles dinossauros que se via no Discovery Channel, com a pele toda enrugada. Passou alguns cremes na pele, mas de nada adiantaram. Logo que a mulher acordou, pulou da cama de susto:
- Alberto, o que aconteceu com seu rosto?
- Nada meu bem, apenas passei um creme esfoliante que comprei ontem. Ficou bom?
- Ficou horrível, como pode passar algo no rosto sem ler o rótulo do produto? Você é alérgico a produtos com álcool, olhe aqui no verso da embalagem.
- Não sou alérgico a álcool, e sim amônia.
- Então não sei. Vá logo se arrumar que o trabalho o aguarda.
- Mas como, com o rosto todo empipocado?
Escrito por PRADO_VINICIUS às 17h07
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AS APARÊNCIAS ENGANAM (parte II)
Ela deu as costas e lá foi ele para o trabalho. Chegando ao escritório, logo foi alfinetado pelo chefe:
- Comeu tanto mel que as abelhas correram atrás de você, foi?
Ficou calado e seguiu trabalhando, atormentado pelos companheiros de trabalho. Na hora do almoço, chegou o Ricardo, da contabilidade:
- Gostei de seu novo visual. Onde comprou este produto para o rosto?
- Por que quer saber?
- Para eu nunca ir lá – saiu dando gargalhadas pelo refeitório.
No fim da tarde, via-se o burburinho por todo o departamento, com olhares indiscretos e e-mails comentando o “novo funcionário” da empresa.
Ao voltar para casa, passou no banco para sacar o salário. Após um fila incessante de quinto dia útil, a moça do caixa chama o segurança.
- Mas o que houve?
- A carteira de identidade que você me passou tem a foto de outra pessoa. Poderia caprichar um pouco mais nesse golpe, não acha? Já criaram photoshop, sabia? – disse um dos seguranças ao levá-lo para sala da gerência.
Ao explicar o ocorrido quatro vezes, foi liberado pelo gerente:
- Da próxima vez, prefira algum anti-rugas.
No congestionamento de volta para a casa, voltou na mesma farmácia que fora no dia anterior. Encontrou no balcão a mesma atendente, e logo pediu para ter o dinheiro de volta.
- Senhor, não aceitamos devoluções, está escrito no cupom fiscal. Se preferir, ligue para nosso zero oitocentos. A satisfação do cliente é nosso compromisso.
Sem outra, foi para casa, todo estressado. Ao deitar-se, percebeu que seu rosto estava parecido àquele cara do comercial de loção pós-barba, com aspecto de pluma. Ficou todo feliz. Ao passar novamente o produto no fim do banho de quarenta graus, leu o encarte que havia junto ao frasco do esfoliante: não aplicar após banho quente, sujeito a irritações na pele.
Foi dormir tão nervoso quanto acordou.
Escrito por PRADO_VINICIUS às 17h06
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DENTE DE LEITE
vbcprado@gmai.com
- Mãezinha, dois dentes meus caíram, o que faço com eles? – perguntou o intrépido garoto agora com a face banguela ao regressar da rua.
- Nossa, filho, nunca vi dois dentes caírem ao mesmo tempo, sabia? Você é o primeiro. Sabe como se chamam os dentes que temos pela primeira vez? Dentes de leite.
- É mesmo? Agora vou ter dentes de quê, mamãe? Dentes de guaraná?
- Não filho, serão iguais aos outros, só não terão nomes.
- Caramba, dente indigente, que maneiro.
- De qualquer modo, você pode jogá-los no telhado para ter sorte; ou colocá-los embaixo do travesseiro para que a fada dos dentes dê a você um dinheirinho, que tal?
- Não sei, mamãe. Não durmo com travesseiro, e pode ser que a fada seja mão-de-vaca. E se jogá-los no telhado os pombos podem comê-los e assim ter uma indigestão. Não posso plantá-los lá na horta para depois vender pés de dentinhos ao dentista? Quando houver alguém com cárie é só pegar um dente na horta e trocar pelo velho.
- Não filhinho, vai que alguém tenha dentes mais escuros que os seus? Vão parecer a bandeira do Vasco.
- Poxa, então o que faço com eles? Posso pintar de amarelo e vender para algum pirata, ele vai pensar que é de ouro?
- Oras, e como vai encontrar um pirata?
- É verdade. Já sei, vou esperar todos os outros dentes caírem para eu fazer uma dentadura para o vovô, ele está precisando.
- Não, vovô precisa de dentes grandes, olha o tamanhão da boca dele.
- Já que não há alternativa, vou dar os dentes para a Maria Rita.
- Mas filho, ela só tem dois meses, é muito pequena...
- Por isso mesmo. A senhora não vai precisar mais amassar a comida para ela. Com meus dentinhos ela poderá mastigar toda a refeição.
- Não tinha pensado nisso...
- Viu por que os dentes caem? Para irmãos mais novos mastigarem melhor!
Escrito por PRADO_VINICIUS às 13h55
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TARJA PRETA
vbcprado@gmail.com
Ultimamente, eu me sinto entrando todos os dias em uma farmácia à procura de um medicamento que remedeie meu tratamento sem cura, que me definha diariamente, e que me enfraquece mais e mais. Meu coquetel de boas ações não é suficientemente eficaz para reduzir os sintomas dessa doença crônica de que sou portador.
Meu médico, Dr. Verdade, receitou o comprimido tempo para eu tratar este mal diagnosticado tarde, e que tem poucas chances de levar a uma cura. Mas tenho certeza que este remédio teria um efeito passageiro, e logo teria uma recaída em meu tratamento. Pedi a ele que receitasse algo mais forte, então me receitou um frasco de sabedoria.
Na farmácia, entraria sempre procurando uma fórmula química que me desse alguma luz no fim do túnel. Até encontraria algo, como o analgésico sorriso e o antialérgico sinceridade. Porém, meu organismo contaminado por tantos vírus é vulnerável demais para remedinhos como estes.
Pediria ao balconista alguma substância mais eficaz, de tarja preta, provavelmente um daqueles da prateleira de cima. Ao chegar em casa, eu me doparia por completo em altas doses daquela droga chamada solidão, sem ao menos ler a bula, que restringia o uso em casos extremos.
No dia seguinte, perceberia que minha doença era psicológica, e eu, hipocondríaco em busca de uma cura de doença inexistente, era contaminado por algo além, que me levara à UTI da boa vida, as ilusões. Então saberia que há contra-indicações em remédios que nos prometem curar o mal, sem ao menos termos a certeza de que prognostico temos em relação ao nosso estado de saúde.
Antes que esqueça, deixe eu me apresentar. Sou mais conhecido como consciência humana.
Escrito por PRADO_VINICIUS às 13h53
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